A cultura do capacitismo

Um conceito que sempre esteve à minha volta, antes mesmo de eu saber que ele tinha nome, é o capacitismo. Essa palavra significa para as pessoas com deficiência o mesmo que o racismo para as pessoas negras, e o machismo para as mulheres. Capacitismo é a crença social de que o indivíduo com deficiência é incompleto, diferente e menos apto para executar qualquer função ou gerir a própria vida.

O capacitismo anda de mãos dadas com a eugenia. Aceitar a visão capacitista é acreditar que exista um único padrão de corpo humano. É querer usar o ideal utópico de perfeição para classificar as pessoas e definir o valor de cada um segundo características físicas, sensoriais ou intelectuais tidas como “boas, belas e perfeitas”. É desconsiderar a arbitrariedade do uso desses adjetivos e oprimir a maioria social em função da ideologia criada por uma minoria.

Existe um silenciamento dessa opressão causada pelo capacitismo. Procura-se justifica-lo constantemente por meio do paternalismo dirigido às pessoas com deficiência. Vistas como frágeis, inocentes e vulneráveis, essas pessoas necessitariam obrigatoriamente da proteção e tutela social. Por trás dessa noção vista como “benevolente e caridosa”, está a afirmação da descrença na igualdade e na capacidade de vida independente do indivíduo com deficiência.

O que significa o conceito de igualdade nesse caso? É a promoção da acessibilidade e da inclusão. Esses dois últimos termos também sofrem deturpação na cultura do capacitismo. Tornar acessível e incluir não são favores nem obras de caridade. São direitos! Direitos para se eliminar as barreiras físicas, comunicacionais, atitudinais, entre outras, do ambiente e da sociedade para torna-los lugares plenamente acessíveis, desfrutáveis e com igualdade de oportunidades para todos.

O padrão do corpo humano perfeito pregado pela cultura do capacitismo não é, nem de longe, universal. Quem é o ser humano para ditar leis nas obras da natureza? Se todos nós existimos nesse mundo, é porque temos os mesmos direitos e a mesma dignidade enquanto pessoas. O valor do nosso todo não pode ser medido pela soma das partes, porque ele é imensurável e transcendental.

A sociedade que discrimina pessoas com deficiência sai prejudicada também com essas atitudes, porque está perdendo o incrível potencial da diversidade humana. A deficiência, por si só, não é algo negativo ou danoso, pois é apenas mais uma das inúmeras características dos seres humanos. O que é prejudicial de fato são as barreiras arquitetônicas, comunicacionais e atitudinais presentes nas sociedades que não valorizam e respeitam as diferenças.

A cultura do capacitismo muitas vezes é tão influente que consegue fazer com que as próprias pessoas com deficiência duvidem de si mesmas e reproduzam tais preconceitos, antes de terem o esclarecimento da opressão a que estão submetidas. A cultura capacitista é também tão hipócrita que parabeniza e taxa como “exemplos de superação” indivíduos com deficiência que vencem as dificuldades criadas pela mesma sociedade que os oprime e os classifica como desiguais.

Ser capacitista também é achar que ter ou adquirir uma deficiência é um tipo de castigo natural ou divino. Igualmente, ser capacitista é pensar que as deficiências só trazem infelicidades. É duvidar que uma pessoa consiga cumprir alguma tarefa que tenha ou não a ver com a deficiência dela. É achar também que um tipo de deficiência seja melhor ou pior do que outro.

Nunca subestime a capacidade humana de resiliência e inovação. Podemos perder um membro, um sentido, uma função do corpo, mas não nossa humanidade e nosso estar no mundo. Somos todos igualmente diferentes e diferentemente iguais. A existência humana não deve ser moldada por padrões e opressões. Vamos ser livres e deixar que todos descubram o seu próprio caminho da felicidade.

Perfil Discriminação

* Imagem do Perfil Discriminação.

Por Ana Raquel Périco Mangili.

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