As múltiplas formas do capacitismo

Em mais de uma ocasião, aqui no Dyskinesis, já expliquei o conceito do capacitismo (que é a discriminação contra as pessoas com deficiência) e também já comentei sobre como as pessoas com distúrbios de movimento podem ser julgadas apenas pelas suas aparências e/ou alterações posturais.

A postagem de hoje, então, pretende aprofundar ainda mais esta temática ao identificar certas bases nas quais se sustentam alguns tipos de preconceito contra os indivíduos com distúrbios de movimento.

Para isto, vou dar exemplos de situações vivenciadas por mim e por amigos(as)/colegas com deficiência e seus familiares.O ponto de partida que escolho para esta reflexão é uma situação muito comum que ocorre nos casos de diagnósticos de distúrbios de movimento em bebês.

Pelo fato de que a própria definição de distúrbio de movimento é “uma alteração de origem neurológica”, muitas famílias ouvem (e até mesmo se fazem) a seguinte pergunta: “Mas esta criança terá o intelecto preservado?”. Minha amiga e colega de profissão, Anne Festucci, também já chegou a abordar tal assunto em seu blog “Nosso Mundo com o Pedro”.

Pois bem, acredito que seja natural a curiosidade e o interesse em se saber quais serão as especificidades de uma deficiência, ainda mais quando se trata de bebês e crianças em fase de desenvolvimento, para poder nortear as expectativas dos pais e dos profissionais da saúde.

O problema é quando tal pergunta se torna uma cobrança, uma forma de reafirmação ou de amenização da deficiência. “Mas o importante é isso, né, ter a mente preservada, de resto para tudo se dá um jeito”, foi o que eu já cheguei a ouvir de algumas pessoas.

Esta última fala representa um dos pontos sustentadores do capacitismo, que é o medo e o desprezo pela deficiência intelectual. E por que eu estou falando de outro tipo de deficiência agora, se o foco do Dyskinesis são os distúrbios de movimento?

Bom, primeiramente, porque empatia nunca é demais! Somos todos(as) pessoas com deficiência e, acima de tudo, seres humanos, que enfrentam o capacitismo diariamente em nossas vidas. Em segundo lugar, porque há casos de distúrbios de movimento associados com outras deficiências, como a intelectual.

E, como terceiro motivo, mas não menos importante, é porque vejo algumas pessoas com distúrbios de movimento (ou outros tipos de deficiência) e seus familiares/amigos reproduzindo a discriminação contra indivíduos com deficiência intelectual como forma de amenizar a sua própria condição.

Exemplos destes casos é o que não falta, e não apenas no que diz respeito a bebês ou crianças com deficiência, como já citei acima. Uma vez, uma moça com deficiência física me perguntou quais deficiências são enquadradas como distúrbios de movimento. E ficou indignada quando eu citei a Doença de Parkinson. “Mas como assim? Parkinson não afeta só idosos e causa demência? Não seria mais parecido com Alzheimer? Por que é um distúrbio de movimento então?”.

Tive que explicar para esta moça que o Parkinson é sim um distúrbio de movimento, pois apresenta principalmente sintomas motores, que a demência é um dos sintomas que costuma aparecer nos estágios finais da doença, e que o Parkinson possui variantes, como o Parkinsonismo, que afeta também indivíduos jovens.

Reconheço que, neste exemplo em específico, o que mais pesou foi a falta de informação da moça que estava conversando comigo. Provavelmente, ela não havia percebido o quanto estereotipava a Doença de Parkinson e não teve esta reação por maldade.

Mas, infelizmente, já tive conhecimento de casos mais “pesados”, que realmente se configuram como discriminação e ignorância no pior sentido da palavra.

Nunca vou me esquecer de um evento que teve na igreja de minha cidade, na época em que eu fazia catequese. Eu tinha uns 11 anos e, junto com outras crianças da minha turma, fomos orientados a entrar em fila até o altar durante a celebração. Só que, para mim, que fui a escolhida para ser a primeira criança da fila, um familiar me deu uma orientação “especial”: “Ana, mantenha a cabeça reta, não faça movimentos bruscos para não parecer retardada e os outros terem dó de você”.

Sim, estas foram as exatas palavras que uma pessoa de minha família me disse, sendo eu uma criança e tendo pouco controle dos meus movimentos devido ao fato de possuir Distonia Generalizada. Lógico que esta orientação extremamente preconceituosa não adiantou em nada, eu não consegui controlar meus movimentos do pescoço ao andar na igreja e ainda fui repreendida depois pela mesma pessoa que me disse aquelas palavras.

Gostaria muito de poder afirmar que discriminações como a relatada acima só aconteceram uma vez em minha vida, mas eu estaria mentindo se dissesse isto. E não apenas eu, mas grande parte das pessoas com distúrbios de movimento já passou por situações parecidas, onde outros indivíduos (e até mesmo familiares) utilizam o fato de termos movimentos involuntários para nos compararem à condição de uma deficiência intelectual ou de um transtorno mental, tratados de forma muito, mas muito, pejorativa.

E o pior disso tudo é que esse tipo de preconceito não afeta somente nós, que temos distúrbios de movimento. Já pararam para pensar no quanto as pessoas com deficiência intelectual e suas famílias são estigmatizadas e sofrem com isso? Existem diferentes tipos e graus de deficiência intelectual (isso sem contar os transtornos mentais), o que pode fazer com que muitas pessoas que tenham esta deficiência percebam sim a discriminação que está à sua volta. E o sofrimento causado por estas atitudes é o mesmo que as demais pessoas com deficiência ou outros grupos sociais sentem, afinal, somos todos seres humanos, iguais em sua essência.

Já vi indivíduos com distúrbios de movimento ou com outras deficiências dizerem que detestam “serem infantilizados ou tratados como se tivessem deficiência intelectual”. Mas não percebem que o problema não está na deficiência intelectual em si? Está na forma como a sociedade encara as pessoas com deficiência intelectual, como sendo eternas crianças ou como se possuíssem um suposto “pior tipo” de deficiência. Isto não é verdade.

O que define o grau de deficiência de uma pessoa são as barreiras arquitetônicas, visuais, comunicacionais e atitudinais que se encontram no ambiente ao seu redor. Dê às pessoas recursos para suprirem as suas necessidades específicas, e elas lhes mostrarão todo o seu potencial.

Em suma, cada indivíduo é único, singular (tendo ele deficiência ou não). Portanto, jamais deveria ser julgado por qualquer uma de suas características ou formas de interagir com o mundo.

 

* Créditos das imagens: Perfil Discriminação (primeira ilustração) e Pixabay (demais ilustrações).

 

Por Ana Raquel Périco Mangili.

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