A história de Antônio Salgado de Abreu e sua convivência com a Doença de Parkinson

Antônio Luiz Salgado de Abreu, morador do Rio de Janeiro e leitor do Blog Dyskinesis, participa este mês da seção Espaço do Leitor, contando um pouco de sua história de vida e de algumas lições que aprendeu durante sua convivência com a Doença de Parkinson. Confira a seguir o relato.

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Minha biografia e minha luta

Nasci em 03/03/1960, numa casa de saúde em Campo Grande, sendo um parto de risco, pois o ginecologista se atrasou e talvez meu parkinsonismo tenha se originado naquele momento, pois durante toda minha existência sempre tive problemas de coordenação motora. Aos cinco anos, tive também problema de fala, trocando letras, mas fiz tratamento com um médico conceituado na época e tive alta em três meses, sendo minha primeira grande vitória. Aos quinze anos, passei no curso de Eletrotécnica da Escola Técnica Federal Celso Suckow da Fonseca.

Em junho de 1978, passei no vestibular para o curso de Tecnólogo em Processamento de Dados da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, um curso altamente badalado na época. Cursei durante quatros anos, me formando em dezembro de 1983, tendo estagiado na Mesbla, Brahma e D.S.I, até ser contratado como programador da Viação Redentor, transformando a folha de pagamento que estava em RPG para linguagem Cobol, fazendo o sistema até o final. Mas como eu queria um salário mais alto, achei melhor largar este emprego, sendo talvez meu primeiro grande erro, pois poderia ter esperado mais tempo até aparecer uma oportunidade melhor.

Bati cabeça procurando estágio, até que resolvi ir trabalhar no açougue da família. Na época, ia muito bem vendendo carne para vários fornecedores, e acabei deixando de lado uma proposta de trabalho em São José dos Campos, perdendo talvez minha grande oportunidade da vida. Acho que aceitei ficar por influência dos meus pais, principalmente da minha mãe, por um pouco de covardia e acomodação também, pois estava inclusive com a passagem comprada, mas cometi mais um erro na vida, ficando para trabalhar no açougue mesmo não gostando.

Trabalhei durante vinte anos no açougue. No início, dava uma boa rentabilidade, mas, com o tempo, começou a decair, até se tornar totalmente inviável. Saí para procurar emprego, mas por estar fora do mercado, só sobrou fazer concurso público. E fiz vários, graças ao apoio, tanto financeiro como emocional, da minha segunda esposa. Neste período, meu primeiro casamento tinha terminado e foi quando encontrei a mulher da minha vida, que me ajudou muito a refazer minha vida e a criar meus filhos, minha companheira que tenho certeza que me acompanhará até o final dos meus dias.

Passei por uma fase muito conturbada, precisando de até auxílio psicológico, mas graças principalmente ao meu esforço, que é, na maioria das vezes, o que faz com que superamos os momentos difíceis, mas não posso esquecer-me do grande apoio dos meus familiares e dos amigos mais chegados.

Não posso deixar de enaltecer a amizade e o apoio como fundamentais, pois não conseguiria nada disso sem uma família unida e organizada, pois eles servem de alicerce a mim. Mas temos que ter acima de tudo uma religião, sendo essa uma falha minha, pois não consigo ter muita fé e isso causa uma insegurança muito grande, apesar de eu ter melhorado muito nesse aspecto.

Enfim, eu passei no concurso do Banco do Brasil e fiquei dois anos esperando ser chamado, de 1999 a 2001. Dois anos de muitos telefonemas, até que, no dia 17/09/2001, tomei posse em uma agência, atuando sempre com muito empenho e afinco, me destacando em vendas, sendo escolhido o destaque da agência com apenas três meses de emprego, era o primeiro que chegava na agência e um dos últimos que ia embora.

Mas, passando um tempo, comecei a ficar com a mão trêmula para escrever, o que me fez procurar médicos neurologistas. Pediram-me exames e aí tive o diagnóstico de Parkinson. Meu mundo veio abaixo, apesar de não sentir nada além da tremedeira nas mãos. Eu trabalhava de forma normal, mas minha deficiência motora já era sentida por todos.

Trabalhava no banco com muito mais empenho do que no açougue em que eu fui dono, pois queria me realizar, o que no açougue nunca foi possível, pois eu sempre seria o filho do dono. Passei por três agências, sempre por indicação dos gerentes e, com tempo, os sintomas do Parkinson foram afetando o meu rendimento, que ia decrescendo cada vez mais. Apesar dos gerentes me darem todo o apoio, eu tive que buscar a aposentadoria.

Comecei a ter dificuldades para andar, problemas para mastigar, e mais sintomas começaram a aparecer. A fala ficou muito carregada e aí os cuidados dos mais chegados passaram a ser maiores, e isso me incomodava bastante, sendo uma falha minha, pois não me conformava com a minha situação. Eu, que já era tímido, me isolei de todos, pois quando alguém notava minhas deficiências, isso me incomodava.

Participei do programa de demissão voluntária no banco, achando que era uma chance de me aposentar sem ser por invalidez. Pensei que conseguiria me aposentar pelo INSS, mas quando fui procurar a previdência, não consegui me aposentar e estou passando por sufocos atualmente, dependendo da ajuda dos meus familiares. Mas eu continuei a procurar emprego, sendo até revendedor de lojas virtuais, mas sem obter resultados. Estão me faltando recursos até para comprar remédios, esse mês, de três, só consegui obter um na farmácia do estado. Peço que, quem puder e se interessar, entre em contato comigo pelo e-mail antonionadir@terra.com.br e compre os produtos da marca Hinode que minha esposa está vendendo, sendo esta uma forma de me ajudar.

Como todo ser humano, cometi erros, sendo os piores o meu isolamento das pessoas, meu orgulho que me trava quando noto que as pessoas percebem minhas deficiências, enfim, o fato de não aceitar minhas limitações. Mas também tenho minhas virtudes, como o empenho em fazer o que me sugerem tanto na parte médica quanto fisioterapêutica. A luta é permanente e tenho de matar um boi por dia. Mas o importante é continuar lutando, pois nós, que temos limitações, não devemos deixar que nos taxem de preguiçosos. Devemos procurar levar a vida numa boa e aproveitar de forma intensa, pois todo momento prazeroso compensa todo o sacrifício que fizemos para chegar a este prazer.

Enfim, a luta tem que ser permanente, não desanimando jamais. Temos que nos unir, um ajudando o outro, vivendo sempre de acordo com nossas possibilidades, e também esperando que alguma nova descoberta da medicina apareça para nos curar ou tornar nossa vida melhor. Temos que aceitar de peito aberto às ajudas e o apoio dos nossos familiares e amigos, lembrando que o amor que eles têm por nós foi fruto do que conquistamos no passado. Vocês não devem se isolar como eu, pois sei que causei decepção e magoei pessoas.

Só procurei com meu testemunho reanimar os que estão na mesma situação, para não desistirem jamais e lutarem sempre. A quem quiser me procurar para uma troca de experiências ou mesmo ajuda ou apoio, deixo aqui novamente meu e-mail: antonionadir@terra.com.br”.

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* Crédito das fotografias: arquivo pessoal.

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