As múltiplas discriminações na vida da pessoa com deficiência – Parte III

Na segunda parte desta grande reportagem, falamos sobre os desafios advindos da interseccionalidade que compõe a categoria mulher com deficiência. Agora, daremos continuidade à temática abordando outra categoria: a dos indivíduos com deficiência e com sobrepeso/obesidade.

Entre o capacitismo e a gordofobia

Estar acima do peso, assim como ter uma deficiência, é uma condição que coloca o indivíduo fora dos padrões que a mídia tradicional considera como universais: um corpo magro e sadio.

Mas tais padrões nem sempre foram os mesmos durante toda a história da humanidade. Na Idade Média, por exemplo, era exatamente o oposto: devido à escassez de alimentos em épocas de guerra ou peste, o sobrepeso era considerado sinal de fartura, de ótimas condições de vida e, portanto, de beleza.

Foi a partir de uma oferta cada vez mais crescente de alimentos que os padrões passaram a ser esses que conhecemos hoje, pois não há mais uma preocupação, para as pessoas com boas condições de vida (e que regem o modelo social-midiático), em saber se vão conseguir se alimentar ou não. O desafio passa a ser outro: ingerir pouca comida tendo todos os alimentos à sua disposição.

Denise Leuterio dos Santos, 49 anos, aposentada, moradora de Ponta Grossa/PR, pessoa com deficiência (um distúrbio de movimento chamado Distonia) e que se identifica também como indivíduo com obesidade, explica o quanto essa concepção atual dos padrões de beleza é prejudicial para as pessoas obesas.

Até os 30 anos eu fui magra, em mais ou menos três anos engordei quase 30 quilos. Tive problema de tireoide, mas, até descobrir esse problema, eu achava que o problema era ‘eu’, me culpava por não caber mais nas minhas roupas, parecia um pesadelo… A sociedade em geral acha que a pessoa gorda é ‘preguiçosa’, come demais e está gorda porque quer, mas não é bem assim. Ninguém quer esse rótulo. O desprezo que um obeso recebe da sociedade é o que mais pesa na balança, as pessoas demonstram nojo… Demonstram no olhar a aversão que sentem. É aí que as coisas saem de controle, não há como emagrecer em pouco tempo e, às vezes, até achamos conforto na comida, piorando tudo.

Psicóloga Sophia Rodrigues. Crédito da imagem: arquivo pessoal.

Sophia Rodovalho dos Santos Rodrigues, psicóloga clínica e ambulatorial, confirma que há uma discriminação absurda contra as pessoas obesas (gordofobia), sobretudo em relação às mulheres. “Ainda vemos a mulher com sobrepeso ou obesa sendo olhada como feia, sendo alvo de piadas ofensivas, sendo maltratada, sendo vista como alguém que ‘não conseguiu’ atingir os padrões que se esperava dela, que não conseguiu estar aparentemente apresentável para a sociedade. É como se fosse uma vergonha e precisasse ser escondida, por isso, as roupas, em geral são largas, cores escuras, que não marquem suas formas, comprimento abaixo do joelho. Sapatos, em geral, sem salto, discretos. Cabelos bem penteados, mas sempre discretos”.

Janaína Apolinário, 30 anos, aposentada, moradora de Campinas/SP e pessoa com deficiência física (Mielomeningocele) e com sobrepeso, conta que já passou por diversas situações desse tipo em sua vida. “Sofri preconceito de colegas de escolas, pessoas na rua e até do meu próprio ex-chefe. A gordofobia pode impactar na vida das mulheres de várias formas, desde uma depressão até uma dificuldade de se aceitar do jeito que você é”, reflete.

A psicóloga Sophia explica que o fato da mídia estar sempre associando obesidade às doenças e problemas de saúde contribui bastante para as dificuldades de autoaceitação de alguns indivíduos. “Penso que ela deve ser tratada como uma enfermidade apenas quando começa a interferir negativamente no estado clínico do paciente, podendo levar a problemas cardíacos, diabetes, dentre outros. Mas, no que tange à aparência, à beleza física, chamar a obesidade de doença tende a dificultar a aceitação do corpo pelas mulheres e pelos homens, e tende a fortalecer a ditadura do corpo magro, definido e sarado como a única opção de beleza”.

E quando a pessoa, além de ser obesa, tem uma deficiência? “Vemos que a situação piora, e muito. Percebemos que tal pessoa é encarada quase que como um indivíduo à margem da sociedade. Muitos têm pena, outros tendem a ‘culpar’ a deficiência como a grande responsável pelo sobrepeso e muitos, mas muitos mesmo, ainda generalizam a deficiência aliada ao sobrepeso como uma causadora de dificuldades cognitivas (podendo estas estarem ou não presentes na pessoa em questão, dependendo do tipo de deficiência)”, esclarece a psicóloga.

Denise dos Santos. Crédito da imagem: arquivo pessoal.

Para Denise, a maior dificuldade advinda da interseccionalidade entre a deficiência e a obesidade é a falta de mobilidade física. “Tropeço muito, tenho dificuldade para fazer qualquer exercício. A Distonia já torna os movimentos difíceis, e agora ficou tudo mais pesado”. Por isso, assim como os idosos, as pessoas com obesidade também podem acabar precisando de recursos de acessibilidade física. Dados divulgados pelo Ministério da Saúde em 2017 mostram que um a cada cinco brasileiros é atingido pela obesidade, e 53,8% da população no país está com sobrepeso.

Então, qual é o sentido de se ater a padrões de beleza que não são nada representativos? A psicóloga Sophia nos deixa uma mensagem. “Aquela história de ‘Como ter um corpo para ir à praia?’, cuja resposta é ‘Tenha um corpo, vista um biquíni e pronto, vá à praia!’ deve servir para conscientizar as pessoas que não há modelo de corpo ideal, se elas estiverem fisicamente saudáveis e sentirem-se bem, então podem olhar-se com amor e se gostarem do jeito que são, podem estar satisfeitas consigo mesmas”.

 

Acompanhe a seguir a continuidade desta grande reportagem, com o artigo sobre a interseccionalidade na vida das pessoas com deficiência e de baixa renda.

 

Por Ana Raquel Périco Mangili.

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