O autoisolamento nosso de cada dia (e noite)

Quando eu era pequena, meus pais preferiam sempre que eu trouxesse amiguinhas para pousar em casa, pois dormir fora sem ter junto alguém da família ou monitora era um pouco difícil, já que tenho uma mobilidade dos braços limitada pela Distonia e preciso de auxílio em algumas atividades. Mas, agora que eu cresci, sei me adaptar e pedir ajuda para as pessoas em que confio.

Nessa última vez em que fui passar o final de semana fora de casa, uma situação nova me ocorreu: minha amiga e sua mãe quiseram que eu dormisse no mesmo quarto que elas. Até então, eu achava, por hábito, que eu iria me deitar num colchão na sala ou ficar em algum outro cômodo. Desde criança, me acostumei a dormir sozinha em casa e, ao saber que dessa vez eu teria companhia, comecei a sentir um mini desespero dentro de mim.

O motivo? Medo de atrapalhar as meninas a dormirem. Eu tenho espasmos até nos músculos que atuam na respiração, o que às vezes me causam emissões vocais involuntárias, como se fossem fortes soluços. Fortes mesmo, a ponto do professor perceber no meio de uma aula na faculdade. E, a partir do momento em que me deito, meus espasmos respiratórios permanecem ocasionalmente até eu pegar no sono (a Distonia tem como característica desaparecer quando estamos inconscientes).

Mas, como costumo demorar a dormir, fiquei realmente apreensiva de que esses barulhinhos meus fossem atrapalhar minha amiga e sua mãe a descansarem. Expliquei meus receios a elas, e as duas me disseram que não se importavam, que, com certeza, dormiriam tranquilas, sem nenhum problema com isso. Decidi então, como sempre faço, a não deixar a Distonia atrapalhar minhas experiências de vida, e aceitei dormir junto no quarto.

Demorei cerca de uma hora para pegar no sono, mas vi as duas adormecerem tranquilamente, e por fim relaxei. Tudo ocorreu naturalmente na noite seguinte também. Aprendi a desencanar dos meus espasmos na respiração. E toda essa experiência me motivou a uma reflexão.

pixabayNão é de hoje que percebo (e luto contra) uma tendência ao autoisolamento em algumas situações da vida. Já recebi várias mensagens de pessoas com distúrbios de movimento que relataram esse mesmo sentimento. O fato é que ele está ligado à imprevisibilidade das características típicas de vários tipos de discinesias.

Nós nunca sabemos quando vai ocorrer o nosso próximo espasmo, a próxima emissão vocal involuntária, o próximo tremor, a próxima torção da musculatura, a próxima pisada em falso. A inconstância reina em nosso corpo, nos causando inseguranças. Se pode ser difícil para nós mesmos lidarmos com essa revolução física, imagina quando se acrescenta a essa mistura o olhar curioso, assustado ou preconceituoso do outro.

À primeira vista, parece mais gratificante fugir do que enfrentar. O autoisolamento nosso de cada dia (e noite) é tentador, pois a paz momentânea que vem dele aparenta ser tudo de que precisamos na ocasião. Porém, ninguém vive bem muito tempo sozinho. Vamos caindo cada vez mais em um fosso de solidão. Parece que todos não nos compreendem.

Mas, na verdade, fomos nós mesmos os criadores desse abismo da incompreensão. Ao nos isolarmos, estamos privando os outros do contato e do conhecimento das diversas particularidades humanas. Porque nossos espasmos, emissões vocais, tremores e torções musculares, queiramos ou não, são parte da gente. Primeiramente, devemos aceitar esse fato para que as demais pessoas tenham a chance de nos aceitarem como somos.

E o autoisolamento não se encaixa com a autoaceitação plena. Por mais que no começo haja insegurança ao nos expormos para o mundo, a persistência desse hábito vai nos fortalecer cada vez mais. E irá doer quando dermos de cara com o primeiro ato de preconceito que encontrarmos no caminho? Sim, irá. Mas, com o tempo, enxergaremos essas reações de outro modo. Nos tornaremos fortes a ponto de perceber que, quem não nos aceita, não merece nosso tempo e nossa atenção.

É um caminho árduo. Tais questões não se resolvem de um dia para o outro. Porém, nosso combustível para essa luta, os objetivos de liberdade, de igualdade e de felicidade, deve sempre nos lembrar de nunca desistir.

* Crédito da imagem: Pixabay.

Por Ana Raquel Périco Mangili.

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