Carta à adolescente que eu fui um dia

Na postagem de hoje, resolvi adaptar uma carta pessoal enviada a um conhecido que está passando por um momento semelhante ao que passei também quando era adolescente. Senti que o texto poderia, quem sabe, ser útil a outras pessoas com deficiência, então, o reescrevi para ser publicado aqui no Dyskinesis.

—–

“Querida jovenzinha Ana Raquel,

Venho, neste momento difícil de sua vida, lhe dar alguns conselhos e um pouco de esperança. Você deve estar agora com uns 15, 16 anos, mas sei que esses sentimentos que lhe sufocam neste momento começaram a surgir bem antes, acumulados desde a infância e o começo da adolescência.

Também sei muito bem que você enfrenta diariamente contrações musculares no corpo inteiro, sem poder evitar. E isso afeta inclusive sua respiração e sua fala, causando, muitas vezes, cansaço e dores físicas.

Porém, o que sempre te angustiou mais do que qualquer sintoma de sua Distonia (ou também os de sua surdez) é o preconceito das demais pessoas. Quando se tem uma deficiência física aparente, é meio inevitável que soframos julgamentos dos outros. Porque, querendo ou não, desviamos do padrão típico de corpo humano que a sociedade está acostumada a ver.

Claro que isto não deveria ser motivo para você ser discriminada em um mundo com mais de sete bilhões de indivíduos e uma enorme diversidade étnica e cultural. Mas, infelizmente, as pessoas ainda se baseiam muito em estereótipos e padrões surreais, preferindo julgar e se afastar daqueles que desviam dessas normas sociais por algum motivo qualquer. É o medo da diversidade se manifestando nas ações e comportamentos humanos.

Por causa deste receio das pessoas em lidarem com aquilo que consideram diferente, você passou, e ainda passará, por muitas situações de preconceito em sua vida. Eram coleguinhas que te isolavam e riam de ti na escola, eram indivíduos que te tratavam com ares de piedade e duvidavam de suas capacidades. E a tudo isso somou-se ainda as frustrações ao ter que lidar com os impactos das suas deficiências (física e auditiva) no dia a dia.

Estes dois fatores, a questão do preconceito somada à convivência diária com as limitações, juntaram-se aos dilemas típicos da adolescência de qualquer jovem e culminaram na criação de uma bolha de auto isolamento, na qual você viverá por bastante tempo. Eu sei que você está cansada de tentar contato com as pessoas e ser retribuída com risos ou com um tratamento diferenciado. Não aguenta mais se sentir diferente. Sua autoestima está em pedaços, reflexo do comportamento dos demais perante a ti.

Então, você foi se isolando. Via seus amigos saírem para festas, socializarem, ficarem com as pessoas de quem gostavam, enquanto ainda tinha que enfrentar os risos e a visão social de que você seria diferente. Resolveu dar um basta nisso: os outros não te isolariam mais, porque agora seria você mesma que faria isso. Mostraria a todos que não precisaria deles para mais nada, pois conviveria consigo mesma, com sua família e com umas poucas outras pessoas, tendo o mínimo possível de contato com os demais.

Suas tardes seriam ler, estudar, jogar no computador, assistir filmes e séries, cuidar dos seus cachorros e fazer companhia à sua amada irmã mais nova. Raras vezes sairá para se encontrar com amigos de sua idade. Falará com eles apenas na escola, e meio à contragosto ainda. Às vezes, terá vontade de chorar, mas não saberá definir o motivo das suas angústias.

E só irá ter a certeza do que está fazendo consigo mesma quando passar, aos 18 anos, no vestibular da Unesp e começar a frequentar a universidade. Vai perceber que a vida é muito mais do que o isolamento ao qual se impôs. O ser humano é um animal social por natureza. Não é à toa que vivemos em sociedade. Nossa concepção da realidade depende de nossas interações sociais.

Qual é o objetivo de estarmos vivos? Bem, a resposta para esta pergunta nem você e nem ninguém poderá afirmar com certeza, pois cada um de nós é quem deverá construir a sua própria trajetória e encontrar os caminhos que levem à satisfação pessoal. Mas o que quero dizer é que é extremamente improvável que alguém viva uma vida de isolamento total. Para atingirmos objetivos maiores, como se formar em uma universidade, trabalhar, construir um patrimônio financeiro próprio, uma família, entre outros sonhos, se faz necessário o estabelecimento de vínculos sociais. Porque o mundo é composto de pessoas, tudo o que nos rodeia foi criado e significado pela humanidade. Não há como fugir disto se quisermos crescer na vida, mudar nosso estado atual e construir nosso futuro de acordo com o que nos faz felizes.

Viver pensando apenas no presente, presos em nossa zona de conforto, com certeza é bem mais cômodo do que se preocupar com o futuro. Mas, uma hora ou outra, “a ficha cai”, como costumam dizer. A gente percebe que deixamos muitas coisas de lado na vida por causa de sentimentos de revolta, de teimosia e de tristeza. Quando nos isolamos das pessoas, tudo bem que evitamos viver situações ruins, mas perdemos também experiências boas, que só estavam esperando uma oportunidade para ocorrerem.

Nós não podemos alterar o nosso passado, mudar as coisas que aconteceram conosco. E é exatamente por isso que não deveríamos nos isolar, nos privar de planejar e viver o futuro. Ficar remoendo acontecimentos ou mágoas só nos faz gastar o precioso tempo que temos pela frente. Diagnósticos ou condições de saúde não determinam nosso destino. Porque somos nós quem o construímos! Lembre-se sempre das besteiras que seus queridos pais ouviram, quando você tinha seis meses de vida e seu diagnóstico ainda não estava fechado. “Nem precisam investir nela, será uma perda de tempo, ela não terá evolução nenhuma, irá apenas vegetar”, diziam. A sua sorte foi que seus pais não acreditaram nesta sentença nem por um momento, e correram atrás de sempre te ajudar e de te motivar a ter uma vida da melhor forma possível.

Quando a gente se fecha em torno de nós mesmos, deixamos de perceber também as pessoas que se preocupam verdadeiramente conosco, e muitas vezes as magoamos com as nossas atitudes. Estamos sendo egoístas ao acharmos que só nós sofremos, que só nós temos os nossos problemas… Ter uma deficiência ou uma doença rara é apenas um desafio dos muitos que a vida pode impor ao ser humano. Crises financeiras, crimes, questões de cor da pele, de orientação sexual… Tudo isso também pode trazer dificuldades para as pessoas, mas nada deve tornar a vida impossível ou insuportável, se o indivíduo encarar os desafios e não se deixar vencer pela depressão.

Você sabe bem o que é este estado de espírito. A gente acaba não tendo vontade de nada, perde a alegria de realizar até as tarefas mais simples e que antigamente nos davam prazer. Por mais que a depressão pareça ser algo incontrolável, temos que tentar lutar contra ela. Pois só temos uma vida, e devemos aproveitá-la ao máximo possível. Se fechar em si mesmo é exatamente o oposto do recomendado para superar a depressão.

A gente tende a achar que nossos comportamentos reclusos não têm nada a ver com isso, que é apenas o nosso jeito de ser, mas, conforme já falado nas linhas acima, nós precisamos de vínculos sociais para vivermos e termos objetivos a longo prazo. Você perceberá isto em breve. A partir de seus 18 anos, irá experimentar sentimentos de culpa quando ver o que estava fazendo consigo mesma ao agir daquele modo. Mas isto também logo irá passar. Você começará a ganhar fé em si mesma e verá que suas particularidades não te tornam muito diferente das demais pessoas.

E sabe porquê? Porque, na verdade, todos nós somos diferentes. Ninguém é igual a ninguém. O que acontece é que há, nas sociedades humanas, uma tendência a se criar e se perseguir padrões físicos e sociais. Já falamos deles no começo desta carta. Depois de seus 18 anos, lentamente você entenderá que eles não deverão exercer mais um poder coercitivo sobre você. E aí você se tornará, pouco a pouco, cada vez mais livre e disposta a correr atrás de seus sonhos. E realizará grande parte deles com a certeza de que nenhuma limitação física e/ou sensorial (e também o preconceito) te impediram de chegar aonde queria estar.

Despeço-me desejando-lhe uma boa sorte em sua jornada.

Com carinho,

Ana Raquel aos seus 23 anos”.

—–

* Crédito da imagem: Pixabay.

Por Ana Raquel Périco Mangili.

Anúncios

4 comentários

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s