E se eu não tivesse uma deficiência?

Creio que a pergunta-título desta postagem é uma das indagações mais comuns, que a maioria das pessoas com discinesia (ou com qualquer outro tipo de deficiência) acaba fazendo em algum momento de sua trajetória. Tanto para os indivíduos que já nasceram com um distúrbio de movimento, quanto para aqueles que o adquiriram posteriormente, considerar e comparar as possibilidades da vida com e sem a deficiência são ações que costumam fazer parte do processo de autoaceitação de sua condição.

Presente principalmente nos momentos de revolta e de autocomiseração, a pergunta “E se eu não tivesse uma deficiência?” acaba se tornando temporariamente uma válvula de escape para nossas angústias, pois nos permite imaginar uma realidade onde não teríamos que lidar com as dificuldades que acompanham esta condição física.

Sejamos realistas: ter uma deficiência não é uma característica desejável inicialmente. Dificilmente alguém iria querer, de forma arbitrária, ganhar um impedimento físico ou de qualquer outra natureza. Não por que a deficiência, por si só, seja algo ruim, mas sim por que a sociedade não está totalmente preparada para fornecer acessibilidade e igualdade de oportunidades a todos, independentemente de suas condições individuais. Assim, um impedimento físico/sensorial/intelectual a longo prazo acaba trazendo barreiras para a vida da pessoa que o possui. A diferença acaba se tornando um peso a ser vencido dia após dia, e muitas vezes de forma árdua e solitária.

Mas, a partir do momento em que nascemos com, ou adquirimos, uma deficiência, não tem mais essa de não querer esta característica. Aconteceu. Deficiência, na própria definição da palavra, é algo irreversível. Perceber inicialmente esta constatação é um fato que dói na alma, sem dúvida alguma. Principalmente quando os obstáculos a serem enfrentados após este evento serão grandes, ou de um tipo que diminua seriamente a qualidade ou a expectativa de vida (como no caso de deficiências causadas por doenças degenerativas).

Daí, ter um período de luto após constatar-se esta nova condição é algo esperado e necessário para assimilar os acontecimentos e refletir sobre eles. “Como vai ser minha vida a partir de agora?”. “E se eu não tivesse esta deficiência, não teria que passar por tudo isto, não é verdade?”. Estes são pensamentos comuns que invadem a nossa mente nos momentos de tristeza e desamparo.

Mesmo para quem já nasceu com uma deficiência, este tipo de pergunta também costuma se fazer presente em algum momento da vida. Nestes casos, a pessoa não conhece outra realidade a não ser esta mesma, de se conviver com a deficiência, mas como a imaginação humana é algo extremamente fértil, torna-se tentador o ato de fazer suposições nos momentos de dificuldades ou de comparações com as demais pessoas.

Porém, ficar pensando nos “E se…” da vida e estender o nosso período de luto por ter ou adquirir um impedimento físico/sensorial/intelectual não nos leva a lugar algum. Pelo contrário, nos faz perder tempo e nos machuca cada vez mais. Não temos como voltar ao passado para alterar acontecimentos. A nossa única opção é seguir em frente, no curso natural da existência.

Assim, resta a nós escolher de que maneira iremos viver nosso presente e futuro: nos lamentarmos e ficarmos remoendo alternativas inviáveis ou buscarmos a resiliência e entendermos que somos muito mais do que aquilo que aconteceu conosco. É claro que acontecimentos significativos, como ter ou adquirir uma deficiência, irão trazer impactos e mudanças permanentes em nossas vidas. Em relação a isso, não há dúvidas. Mas os novos caminhos que se abrirão para nós após este ponto marcante em nossa trajetória serão sempre desvantajosos ou menos válidos do que os que seriam esperados antes deste acontecimento?

De maneira alguma! Pensemos na sensibilidade que adquirimos, na nossa nova maneira de vermos o mundo após a deficiência fazer parte de nossas vidas. Pensemos nas coisas que aprendemos ao mergulharmos nesta extensão da existência. Pensemos nas pessoas que conhecemos e criamos vínculos graças ao compartilhamento da causa em comum. Elas não valem a pena? Não foram algo de bom que somou-se em nossas trajetórias?

A vida é uma interação de acontecimentos, onde cada um deles influencia a percepção do anterior já vivido e do próximo a estar por vir. Somente um desses acontecimentos não é o bastante para determinar a forma como viveremos todos os demais. Ao mesmo tempo em que não é possível mudarmos totalmente a nossa realidade, é possível também transformarmos a maneira como a enxergamos e agimos sobre ela.

Então, retornando à pergunta-título desta postagem: E se eu não tivesse uma deficiência? Eu teria menos obstáculos a transpassar, incluindo todos os sentimentos que os acompanham? Sinceramente, creio que não há uma resposta definitiva para esta indagação. Pois, da mesma forma que uma deficiência causa mudanças em nossa trajetória, inúmeros outros acontecimentos têm este mesmo poder. O que realmente vai determinar a sua felicidade serão o seu posicionamento e suas atitudes perante as adversidades da vida. E a gente só tem como saber a nossa reação aos obstáculos da existência na medida em que eles acontecem.

* Crédito das imagens: Pixabay.

Por Ana Raquel Périco Mangili.

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